29 de maio de 2012

821 111


Lembrou-se exasperadamente das 2 horas insalubres que teria pela frente. Lembrou que não tinha nada para fazer além de sentar e esperar. Caminhou a passos arrastados, pé ante pé, na tentativa infundada de acelerar o tempo e diminuir o caminho. 

Atravessou a porta da biblioteca mediana acolhida pelo ar condicionado velho e rabugento e o gemer das cadeiras ante o peso. 

Olhou o salão a direita onde se apinhavam pessoas, grupos e seus notebooks recorrendo ao ar condicionado rabugento e velho. 

O salão da esquerda tinha um entra e sai efusivo de estudantes e menos de duas dúzia de cadeiras reclamonas. 

Sentou-se em uma mesa ao centro, onde cabiam mais sete pessoas com certo aperto, e ocupou o maior espaço que conseguiu para evitar algum companheiro de mesa. Enfiou os fones de ouvido, tamborilava os dedos silenciosamente e lia Poe. 

Leu 2 ou 3 palavras... parágrafos e desconcertada com o remexer da mesa ao lado, pôs-se a caminhar diante das fileiras de livros... Matemática, Direito, Medicina, Engenharias, Shakespeare. 

Shakespeare? 

Voltou dois passos, onde a altura dos olhos lia-se: MACBET. Girou nos calcanhares e as costas lia-se: História do Designer Pós-moderno. Riu-se. 

821 111. Leu colado a prateleira fria, logo abaixo do calor de Shakespere. Os livros passavam frio naquelas últimas fileiras. Lá no alto, aranhas teciam fios do maior ao menor e vice-versa. 

O abarrotar das prateleiras, a leve camada de poeira e a extrema organização dos títulos indicavam o pouco uso daquele corredor a direita. 

Pousou o indicador e percorreu o declive das lombadas lendo título a título, ignorando a variação de idiomas e a clara passagem dos anos. 

Abaixou-se para analisar a prateleira inferior, puxou um Brontë edição de 1949. As páginas amareladas estalavam baixinho ao serem viradas, como quem reclama ao ser desperto. Mas, em inglês. Decepcionou-se. 

Brontë aninhava-se ao lado de Christie, Austen e ocasionalmente Baudelaire e Dumas, em conversas efusivas de um falar francês encantador. 

Voltou-se ao Shakespeare e puxou Macbet, não mais novo que o Brontë. Impacientou-se por estar em outro idioma. Recolocou. Puxou outros títulos, - Anotação mental: descobrir mais sobre Benchley. – até o quinto Shakespeare estavam em inglês. Desistiu. Por hora. 

Já havia passado 2 horas e tinha compromisso a seguir. Voltou a repetir a prateleira: 821 111, antepenúltima, da esquerda para a direita.

@lorena_rcorreia

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